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SPURGEON - O GRANDE ANIVERSÁRIO

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SPURGEON - O GRANDE ANIVERSÁRIO

Mensagem  Equipe Apologética em Sex Dez 23, 2011 7:58 pm

Nº 1815
Sermão pregado na manhã de Domingo, 21 de Dezembro de 1884
por Charles Haddon Spurgeon,
no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres,


“Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. ” Galatas 4:3-6

O nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo nesse mundo é um manancial de uma felicidade pura e sem mistura. Associamos com Sua crucificação uma boa dose de dolorosa lamentação, porem Seu nascimento em Belém nos provoca somente deleite. O canto angélico era um apropriado acopanhamento para esse ditoso acontecimento, e a plenitude da terra de paz e de boa vontade é uma apropriada consequência desse condescendente fato. As estrelas de Belém não projetam uma sinistra luz. Podemos cantar com um indivizível gozo: “Um menimo nos nasceu, um filho é nos dado.” Quando o eterno Deus inclinou-se desde o céu e assumiu a natureza de Sua própria criatura que havia se rebelado contra Ele, esse ato não podia significar nenhum dano ao homem. Que Deus assuma nossa natureza não significa que Deus esteja contra nós, mas sim que Deus está conosco. Podemos tomar ao bebê em nosso braços e sentir que temos visto a salvação do Senhor. Não pode significar destruição para os homens. Não me surpreende que os homens do mundo celebram o suposto aniversário do grande Aniversariante como uma grande festa com cantatas e banquetes. Desconhecendo por completo o significado espiritual do mistério, percebem, contudo, que significa, o bem do homem, e assim respondem ao fato a sua tosca maneira. Nós que não observamos nenhum dia que não houvesse sido estabelecido pelo Senhor, nos alegramos continuamente em nosso Príncipe de Paz, e encontramos na humanidade de nosso Senhor uma fonte de consolação.

Para os que constituem verdadeiramente o povo de Deus, a encarnação é o motivo de uma alegria reflexiva que sempre cresce conforme aumenta nosso conhecimento de seu significado, assim como os rios ficam mais abundantes graças a muitos débeis afluentes. O Nascimento de Jesus não somente nos traz esperança, mas sim a certeza de boas coisas. Não só consideramos que Cristo entra em uma relação com nossa natureza, mas estabelece uma união conosco, pois Ele se converteu numa só carne conosco por propósitos tão grandes como Seu amor. Ele é um com todos os que temos crido em Seu nome.

Consideremos à luz de nosso texto o efeito especial produzido na igreja de Deus pela vinda do Senhor Jesus Cristo encarnado. Vocês sabem, amados, que Sua segunda vinda produzirá uma mudança maravilhosa na igreja. “Então os justos resplandecerão como o sol.” Desejamos Sua segunda vinda para que a Igreja seja içada a uma plataforma mais alta da que ocupa agora. Então os militantes se converterão triunfantes, e os que trabalham arduarmente se converterão exultantes. Agora é o tempo da batalha, porem a Segunda Vinda é a vitória e o repouso. Hoje, nosso Rei nos envia ao conflito, mas logo Ele reinará gloriosamente no monte Sião com Seus anciões. Quando Ele se manifeste seremos semelhantes a Ele, pois o veremos tal como Ele é. Então a esposa se adornará com suas jóias e estará preparada para Seu Esposo. Toda a criação que espera geme uníssona, e juntamente está em harmonia com as dores de parto da Igreja, mas então chegará a seu tempo de iluminação e entrará na libertade gloriosa dos filhos de Deus. Essa é a promessa do segundo advento.

Porem, qual foi o resultado do primeiro advento? Teve algum impacto na dispensação da igreja de Deus? Teve, mais além de toda dúvida. Paulo nos diz aqui que eramos meninos em escravidão sob os rudimentos do mundo, até que veio a plenitude dos tempos quando “Deus enviou a Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei.” Alguns dirão: “aqui está se falando dos judeus”, mas ele nos previne expressamente no capítulo anteiror que não devemos dividir à igreja entre judeus e gentios. Para ele, a igreja é uma, e quando diz que estavamos em escravidão, está se dirigindo aos galatás cristãos, muitos dos quais eram gentios, porem não os considera nem como judeus nem como gentios, mas sim como parte de uma igreja de Deus única e indivizível. Naqueles épocas nas que a eleição abarcava principalmente as tribos de Israel, havia sempre alguns eleitos situados mais além dessa linha visível, e na mente de Deus o povo eleito não foi jamais considerado como judeu ou gentio, mas sim como um em Cristo Jesus. Então Paulo nos dá a saber que a igreja até o momento da vinda de Cristo era como um menino em idade escolar sob tutores e aios, ou como um jovem que não havia alcançado a idade da sensatez e, portanto, que era mantido muito apropriadamente sob certas restrições. Quando Jesus veio, o grande dia de Seu nascimento foi o dia do cumprimento da maioridade para a igreja: então os crentes já não foram meninos, mas sim converteram-se em homens em Cristo Jesus. Por meio de Seu primeiro advento nosso Senhor fez a igreja passar de sua menoridade e de estar sob tutela, a uma condição de maturidade na que foi capaz de tomar posse da herança e de reclamar seus direitos e liberdades, e desfrutá-los. Foi maravilhoso passar de estar sob a lei como seu aio, e sair de sua vara e seu governo e chegar à liberdade e ao poder de herdeiro adulto – porem, assim foi a mudança para os crentes de tempos antigos e, em consequencia, houve uma maravilhosa diferença entre os maiores do Antigo Testamento e os mais pequenos do Novo. Entre os que nascem de mulher, não se levantou outro maior que João Batista, e no entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior que ele. João Batista pode ser comparado com um jovem de dezenove anos, ainda infante na lei, todavia sob seu aio, ainda incapaz de tocar em seu herança – porem o mais pequeno crente em Jesus superou seu menoridade e “já não é escravo, mas sim filho – e se filho, tambem herdeiro de Deus por meio de Cristo”.

Que o Espirito Santo abençoe o texto para nós enquanto o usamos dessa forma. Primeiro, consideraremos a alegre missão do Filho de Deus em si mesma, e logo consideraremos o feliz resultado que resultou dessa missão, segundo está expresso em nosso texto.

I. Os convido a CONSIDERAR A ALEGRE MISSÃO DO FILHO DE DEUS. O Senhor do céu veio à terra – Deus assumiu a natureza humana. Aleluia!

Essa grandiosa transação foi cumprida em seu devido tempo: “Quando veio o cumprimento do tempo, Deus enviou a seu Filho, nascido de mulher”. O tanque do tempo tinha que ser cheio pela sucessão de uma idade pós outra, e quando esteve cheio até a boca, apareceu o Filho de Deus. Por que o mundo teve que permanecer em trevas durante quatro mil anos, o motivo pelo qual teve que transcorrer esse lapso para que a igreja alcançasse sua plena idade, não poderíamos sabê-lo – o que sim nos é dito é que Jesus foi enviado quando veio a plenitude dos tempos. Nosso Senhor não veio antes de Seu tempo nem depois de Seu tempo: Ele foi pontual a Sua hora, e clamou no momento certo: “Eis aqui que venho”. Nós não podemos remexer curiosamente nas razões pelas que Cristo veio quando o fez, mas podemos meditar com reverência nelas. O nascimento de Cristo é a maior luz da história, o sol no céu de todos os tempos. É a estrela polar do destino humano, o ponto essencial da cronologia, o lugar de encontro das águas do passado e do futuro. Por que ocorreu justo naquele momento: Certamente assim foi anunciado com antecedência. Existiam muitas profecias que apontavam exatamente para essa hora. Não os deterei com elas agora – porem os que estão familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento saberão bem que, como com igual número de dedos, apontavam ao tempo quando Siló viria, e seria oferecido o grandioso sacrifício. Veio na hora designada por Deus. O infinito Senhor estabelece a data de cada evento. Todos os tempos estão em Suas mãos. Não há fios soltos na providência de Deus, não há pontos de ferimentos que soltem, não há eventos que sejam deixados ao azar. O grande relógio do universo marca um tempo preciso e todo o maquinário da providência se move com uma pontualidade certeira. Era de se esperar que o maior de todos os eventos fosse cronometrado muito precisa e sabiamente, e assim realmente o foi. Deus quis que fosse onde foi e quando foi, e essa vontade é para nós a razão última.

Se pudéssemos sugerir algumas razões que fossem apreciadas por nós mesmos, deveríamos ver a data em referência à igreja mesma enquanto ao tempo do cumprimento de sua maioridade. Há uma medida de razão em estabelecer a idade de vinte e um anos como o período de maioridade de um homem[1], pois então ele está maduro e plenamente desenvolvido. Não seria sábio estabelecer que uma pessoa fosse maior de idade na idade de dez, ou onze ou doze anos – qualquer um veria que esses anos juvenis seriam inapropriados. Por outro lado, se não alcançássemos a maioridade até não cumprir os trinta anos, qualquer um veria que seria uma postergação sem necessidade e arbitrária. Agora, se fossemos bastante sábios, veríamos que a igreja de Deus não haveria podido tolerar a luz do Evangelho antes do dia da vinda de Cristo. Tampouco haveria sido bom manter ela nas sombras mais além desse tempo. Havia uma adequação quanto à data que não podemos entender plenamente porque não possuímos os meios de formarmos um cálculo tão definitivo da vida de uma igreja como da vida de um homem. Só Deus conhece os tempos e as estações para uma igreja e, sem dúvida, para Ele, os quatro mil anos da antiga dispensação constituíram um apropriado período para que a igreja permanecesse na escola e levasse o jugo em sua juventude.

O tempo do cumprimento da maioridade de um homem foi estabelecido pela lei com referência aos que o rodeiam. Para os serventes, não seria conveniente que o menino de cinco ou seis anos fosse seu patrão – no mundo do comércio não seria conveniente que um jovem comum dez ou doze anos fosse um comerciante por conta própria. Existe uma adequação com referência a parentes, vizinhos e dependentes. Assim havia uma adequação no tempo em que a igreja cumpriria sua maioridade com relação ao resto da humanidade. O mundo tem que conhecer sua escuridão para poder valorizar a luz quando ela brilha. O mundo tem que se cansar de sua escravidão para que possa dar as boas vindas ao grandioso Emancipador. O plano de Deus era que a sabedoria do mundo demonstrasse ser tolice. Ele tinha a intenção de permitir que o intelecto e a habilidade se esgotassem, e então enviaria a Seu Filho. Ele permitiria que o homem comprovasse que sua força era uma debilidade perfeita, e então Ele se converteria em sua justiça e sua força. Então, quando um monarca governava todas as terras e quando o templo da guerra foi fechado depois de anos de derramamento de sangue, o Senhor a quem os fiéis buscavam apareceu de pronto. Nosso Senhor e Salvador veio quando o tempo era cumprido, quando era como uma colheita pronta para ser colhida, e assim Ele virá de novo quando mais uma vez a idade esteja madura e pronta para Sua presença.

Observem quanto à primeira vinda, que o Senhor movia-se nela até o homem. “Quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou a seu Filho”. Nós não nos movemos para o Senhor, mas sim que o Senhor moveu-se até nós. Eu não encontro que o mundo, em arrependimento, buscasse seu Criador. Não, antes, o próprio Deus ofendido, em infinita compaixão, rompeu o silêncio e veio para abençoar Seus inimigos. Vejam que espontânea é a graça de Deus. Todas as coisas boas começam com Ele.

É muito deleitável que Deus demonstre um interesse em cada etapa do crescimento de Seu povo, desde sua infância espiritual até a idade adulta espiritual. Assim como Abraão fez um grande banquete quando Isaque foi desmamado, assim o Senhor faz um banquete quando Seu povo cumpre a maioridade. Enquanto eram como menores de idade sob a lei das observâncias cerimoniais, Ele os conduziu e os instruiu. Ele sabia que o jugo da lei era para seu bem, e os consolava enquanto o suportavam – porem se alegrou quando chegou a hora para sua alegria mais plena. Ó, que verdadeiramente o salmista disse: “Que preciosos me são, ó Deus, teus pensamentos! Que grande é a soma deles!” Declarem com gozo e alegria que as bênçãos da nova dispensação sob a que estamos são os dons espontâneos de Deus, cuidadosamente entregues com grande amor que fez sobre abundar para conosco em toda sabedoria e inteligência. Quando veio a plenitude do tempo, Deus mesmo interveio para conceder a Seu povo seus privilégios, pois não é Sua vontade que ninguém de Seu povo se perca de um só ponto das bênçãos. Não é Seu desejo que sejamos bebês – ele quer que sejamos homens. Se padecermos fome não é por Seu desejo, pois Ele quer encher-nos com o pão do céu.

Observem a intervenção divina: “Deus enviou a seu Filho”. Espero que não lhes pareça chato que me detenha para considerar a palavra: “enviou”, “Deus ENVIOU a seu Filho”. Essa expressão produz um grande prazer em mim, pois ela sela toda a obra de Jesus. Tudo o que Cristo fez, o fez por comissão e autoridade de Seu Pai. O grandioso Senhor, quando nasceu em Belém e assumiu nossa natureza, fez isso sob a autorização divina – e quando chegou e distribuiu dons abundantes entre os filhos dos homens, era mensageiro e embaixador de Deus. Era o Embaixador pleno da Corte do céu. Por trás de cada palavra de Cristo está a garantia do Eterno. Por trás de cada promessa de Cristo há um juramento de Deus. O Filho não faz nada por Si mesmo, mas sim que o Pai trabalha com Ele e Nele.

Ó alma, quando se apóia em Cristo, não está confiando em um Salvador amador nem num Redentor que não foi comissionado, mas sim em Um que é enviado pelo Altíssimo e que, portanto, está autorizado em cada coisa que realiza. O Pai diz: “Esse é meu Filho amado, a Ele ouvi”, pois ao ouví-lo, estão ouvindo ao Altíssimo. Encontraremos felicidade, então, na vinda de nosso Senhor à Belém, porque Ele foi enviado.

Agora, dirijam seu olhar à seguinte palavra: “Quando veio na plenitude do tempo, Deus enviou a seu Filho”. Observem à Divina pessoa que foi enviada. Deus não enviou a um anjo, nem uma criatura exaltada, mas sim “a seu Filho”. Como poder haver um Filho de Deus, não o sabemos. A eterna filiação do Filho deve permanecer sendo para sempre um desses mistérios nos quais não podemos bisbilhotar. Seria algo parecido ao pecado dos homens de Bet-Sames se fossemos abrir a arca de Deus para contemplar as coisas profundas de Deus. É muito certo que Cristo é Deus, pois aqui Ele é chamado “seu Filho”. Ele existia antes de ter nascido nesse mundo, pois Deus “enviou” a Seu Filho. Ele já existia, pois de outra forma não poderia ter sido “enviado”. E no caso que Ele é um com o Pai, contudo, tem que ser distinto do Pai e tem que ter uma personalidade separada a do Pai, pois de outra maneira não poderia ser dito que Deus enviou a Seu Filho. Deus o Pai não nasceu de uma mulher nem foi gerado sob a lei, mas sim unicamente Deus o Filho – portanto, ainda que sabemos e nos é assegurado que Cristo é um com o Pai, contudo, deve-se observar de maneira muito clara Sua personalidade distinta.

É de admirar que Deus tenha gerado um Filho só, e que o tenha enviado para nos levantar. O mensageiro para os homens não pode ser outro que o próprio Filho de Deus. Que dignidade há aqui! É o Senhor dos anjos quem nasceu de Maria – é Ele, sem quem nada do que foi feito foi feito, quem se digna ser ninado no peito de uma mulher e envolto em panos. Ó, a dignidade disso e, consequentemente, ó, sua eficiência! Quem veio nos salvar não é nenhuma frágil criatura como nós – quem assumiu nossa natureza, não é um ser de limitada força, tal como poderiam ter sido um anjo ou um serafim – porem, Ele é o Filho do Altíssimo. Glória seja dada a Seu bendito nome! Reflitamos com deleito sobre isso.

“Se se tivesse enviado a algum profeta
Com as alegres novas da salvação,
Quem ouviria esse bendito evento
Poderia recusar um amor mais terno?

Porem foi Aquele para quem no céu
Não cessam jamais as aleluias;
Ele, o poderoso Deus, nos foi dado,
Foi-nos dado o Príncipe da Paz.

Ninguém senão Aquele que nos criou
Poderia redimir do pecado e do inferno;
Ninguém senão Ele poderia reinstalar-nos
No lugar do qual caímos”.

Prossigamos, nos aderindo ainda as próprias palavras do texto, pois são muito doces. Deus enviou a Seu Filho em uma humanidade real, “feito de mulher”[2]. A Versão Revisada apropriadamente o expressa assim: “nascido de mulher”. Talvez se pudessem se aproximar mais a essência do original, se dissessem: “feito para ser nascido de mulher”, pois ambas ideias estão presentes, o factum (feito) e o natum (nascido), o ‘sendo feito’, e o ‘sendo nascido’. Cristo era real e verdadeiramente da substância de Sua mãe, tão certamente como qualquer outro infante que nasce no mundo o é. Deus não criou a natureza humana de Cristo em separado e para depois transmiti-la á existência mortal por alguns meios especiais – antes, Seu Filho foi feito e foi nascido de mulher. Ele é, portanto, de nossa raça, um homem como nós e não um homem de outra espécie. Vocês não devem cometer nenhum erro a respeito disso. Ele não só possui uma humanidade, mas possui a nossa humanidade, pois quem é nascido de mulher é um irmão para nós, independente de quando tenha nascido. No entanto, há uma omissão que sem dúvida não foi intencional ao não mostrar qual santa era essa natureza humana, pois Ele é nascido de uma mulher, não de um homem. O Espírito Santo cobriu com Sua sombra à Virgem, e “o Santo Ser” nasceu dela sem o pecado original que pertence a nossa raça por descendência natural. Aqui existe uma humanidade pura, ainda que é uma verdadeira humanidade – uma verdadeira humanidade, ainda que é livre de pecado. Nascido de mulher, era curto de dias, e enfadado de dissabores – nascido de mulher, estava rodeado de nossas debilidades físicas – porem, como não era nascido de homem, Ele estava por completo desprovisto de toda tendência ao mal ou ao deleite no mal. Eu lhes rogo que se alegrem nessa íntima aproximação de Cristo conosco. Façam soar os sinos, se não nos campanários e nas torres, dentro de seus corações, pois jamais seus ouvidos saudaram noticias mais alegres que essas: que aquele que é o Filho de Deus foi também “nascido de mulher”.

Agrega-se adicionalmente que Deus enviou a Seu Filho “feito sob a lei!”, ou nascido sob a lei, pois a palavra é a mesma em ambos os casos; e pelos mesmos meios pelos que chegou a nascer de uma mulher, ele veio baixo a lei. E agora admirem e maravilhem-se! O Filho de Deus veio sob a Lei. Ele era o Legislador e o Promulgador, e era também o Juiz e o Executor da Lei, e, com tudo, Ele mesmo veio sob a Lei. Ele esteve sob a lei desde que nasceu de uma mulher; isso o fez voluntariamente, e, no entanto, necessariamente. Ele quis ser homem, e sendo um homem aceitou a posição e esteve no lugar do homem como sujeito à lei da raça. Quando o tomaram e o circuncidaram de acordo à lei, declarou-se publicamente que Ele estava sob a lei. Vocês podem comprovar quão reverentemente observou os mandamentos de Deus durante o resto de Sua vida. Ele tinha inclusive uma consideração escrupulosa para com a lei cerimonial segundo foi dada por Moisés. Desprezava as tradições e as superstições dos homens, porem tinha um elevado respeito pela lei da dispensação.

Ele veio sob a lei moral para render um serviço a Deus em nosso nome. Guardou os mandamentos de Seu Pai. Obedeceu plenamente a primeira e segunda Tábua da Lei, pois amava a Deus com todo Seu coração e a Seu próximo como a Si mesmo. “O fazer tua vontade, Deus meu, me agradou” – Ele disse – “e tua lei está no meio de meu coração”. Podia dizer verdadeiramente do Pai: “eu faço sempre o que lhe agrada”. Contudo, foi algo maravilhoso que o Rei dos reis estivesse sob a lei e, especialmente, que viera sob o castigo da lei, assim como a seu serviço. “Estando na condição de homem, se humilhou a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz”. Como era nossa Fiança e Substituto, esteve debaixo da maldição da lei. Foi feito por nós maldição. Tendo tomado nosso lugar e tendo assumido nossa natureza – ainda que Ele mesmo era sem pecado – submeteu-se as rigorosas demandas da justiça, e a seu tempo inclinou Sua cabeça à sentença da morte; “Ele colocou sua vida por nós”. Morreu, o justo pelos injustos, para nos levar a Deus. Nesse mistério de Sua encarnação, nessa maravilhosa substituição de Si mesmo pelos pecadores, radica a base desse portentoso progresso que os crentes fizeram quando Jesus veio na carne. Seu advento em forma humana começou a era da maioridade espiritual e da liberdade.

II. Portanto, eu lhe peço agora, em segundo lugar, QUE CONTEMPLEM O GOZOSO RESULTADO PRODUZIDO PELA ENCARNAÇÃO DE NOSSO SENHOR.

Devo voltar ao que disse antes: a vinda de Cristo colocou um fim e menoridade dos crentes. Os membros do povo de Deus, entre os judeus, eram filhos de Deus antes que Cristo viesse, porem eram meros bebês ou filhinhos. Eram instruídos nos rudimentos do conhecimento divino por meio de tipos, emblemas, sombras e símbolos – porem quando Jesus veio, esse ensino infantil chegou a seu fim. As sombras desparecem uma vez que a substância é revelada – os símbolos não são necessários quando a pessoa simbolizada está ela mesma presente. Que grande diferença entre o ensino de nosso Senhor Jesus Cristo quando nos mostra claramente as coisas do Pai, e o ensino dos sacerdotes quando ensinavam por meio de lã escarlate e o hissopo e o sangue! Que diferente é o ensino do Espírito Santo repartido pelos apóstolos de nosso Senhor, e a instrução mediante a utilização de comidas e bebidas e festivais! A antiga economia esta obscurecida pelo incenso, oculta atrás de umas cortinas, protegida de uma aproximação demasiadamente familiar – porem, agora chegamos valorosamente ao Trono e com rosto descoberto contemplamos como em espelho a glória de Deus. O Cristo veio, e agora se abandona a pré-escola e se muda para a universidade do Espírito, por quem somos ensinados pelo Senhor para conhecer como somos conhecidos. O severo governo da lei foi concluído.

Entre os gregos se cria que os garotos e os jovens precisavam de uma cruel disciplina. Enquanto iam a escola eram tratados asperamente por seus pedagogos e tutores. Considerava-se que um garoto só podia absolver a instrução através da sua pele, e que a árvore do conhecimento era originalmente uma Bétula[3] e, portanto, não se poupava a vara e não havia nenhum abrandamento de abnegações e penalidades. Isso representava adequadamente a obra da lei naqueles crentes primitivos. Pedro fala dela como um jugo que nem eles nem seus pais eram capazes de levar (Atos 15:10). A lei foi promulgada em meio de trovões e chamas de fogo, e era mais apropriada para inspirar um são temor do que uma confiança amorosa. Essas verdades mais doces que são nossa diária consolação eram quase desconhecidas ou pouco de falava delas. Os profetas certamente falaram de Cristo, porem se dedicavam mais frequentemente em proferir lamentações e denuncias contra os filhos corruptos. Parece-me que um dia com Cristo equivaleria a meio século com Moisés. Quando Jesus veio, os crentes começaram a se inteirarem sobre o Pai e de Seu amor, de Sua graça abundante e do reino que havia preparado para eles. Então, foram reveladas as doutrinas do amor eterno, da graça redentora, e da fidelidade do pacto, e ouviram sobre a ternura do Irmão Maior, da graça do grandioso Pai e da habitação do sempre bendito Espírito nas pessoas.

Era como se tivessem passado da servidão para a liberdade; da infância à idade adulta. Bem aventurados aqueles que em seu dia compartilharam o privilégio da antiga economia, pois ela era uma luz maravilhosa comparada com as trevas pagãs – no entanto, apesar de tudo isso, comparada com a luz do meio-dia que Cristo trouxe, era a simples luz de uma vela. A lei cerimonial sujeitava o homem a uma severa servidão: ‘não deveis comer isso, não deveis ir ali, não deveis vestir isso e não deves recolher aquilo’. Estava sob restrição por onde quer que fosse e caminhava entre espinhas. Ao israelita se lhe recordava o pecado a cada instante, e lhe advertia de sua perpétua tendência em cair em uma ou outra transgressão. Era muito bom que assim fosse, pois é bom que um homem, enquanto ainda seja jovem, tome o peso do jugo e aprenda a obediência – no entanto, deve ter sido cansativo. Quando Jesus veio, que feliz diferença estabeleceu. Parecia um sonho de júbilo, demasiadamente bom para ser verdade. Pedro não podia crer a principio e necessitou de uma visão que o assegurasse que era assim. Quando viu esse grande lençol que descia, repleto de todo tipo de criatura vivente e de quadrúpedes terrestres, e quando lhe foi ordenado que os matasse e comesse, disse: “Senhor, não – porque nenhuma coisa comum ou imunda comi jamais”. Estava em verdade surpreendido quando o Senhor lhe disse: “O que Deus limpou, não o chames tu comum.” Essa primeira ordem de coisas “consiste só em comidas e bebidas, de diversas abluções, e ordenanças sobre a carne, impostas até o tempo de reformar todas as coisas”; porem Paulo disse: “Eu sei, e confio no Senhor Jesus, que nada é imundo em si mesmo”. A proibição a respeito de meros pontos cerimônias e mandamentos sobre assuntos carnais, está abolida agora, e grande é nossa liberdade – seriamos néscios em verdade se permitíssemos ficarmos enredados de novo com o jugo da servidão. Nossa menoridade terminou quando o Senhor, que falou pelos profetas, nos últimos dias enviou a Seu Filho para nos guiar à forma mais sublime de maturidade espiritual.

É-nos dito a continuação que Cristo veio para redimir os que estavam sob a lei; quer dizer, o nascimento de Jesus, Sua vinda sob a lei e Seu cumprimento da lei libertaram da lei, como julgo de escravidão, aos crentes. Nenhum de nós deseja ser livre da lei como regra de vida – nos deleitamos nos mandamentos de Deus, que são santos, justos e bons. Desejamos poder guardar cada preceito da lei sem uma só omissão ou transgressão. Nosso sincero desejo é alcançar uma perfeita santidade, porem não olhamos nessa direção para nossa justificação diante de Deus. Se nos perguntassem hoje: “esperam ser salvos por meio de cerimônias?” Respondemos: “Deus não o queira”. Alguns parecem fantasiar que o batismo e a Ceia do Senhor tomaram o lugar da circuncisão e da Páscoa, e se bem que os judeus eram salvos por uma forma de cerimonial, nós temos que ser salvos por meio de outra forma. Nunca demos guarida a essa ideia – não, nem sequer por uma hora. O povo de Deus é salvo, não por ritos externos, nem formas nem por superstições sacerdotais fraudulentas, mas sim devido a que “Deus enviou a Seu filho, nascido de mulher e nascido sob a lei”, e Ele guardou a lei de tal forma que, por fé, Sua justiça cobre a todos os crentes e não somos condenados pela Lei. Quanto à lei moral, que é a norma de equidade para todo o tempo, não é um caminho de salvação para nós.

Uma vez estivemos sob essa lei e nos esforçávamos para guardá-la com o objetivo de ganhar o favor divino, porem agora não temos tal motivo. A palavra era: “faz isso, e viverás”, e, portanto, nos esforçávamos como escravos para escapar do látego e ganhar nosso salário – porem, já não é mais assim. Antes, nos esforçamos por cumprir a vontade do Senhor para que Ele nos amasse e para que fossemos recompensados pelo que fizemos – mas agora não temos o desígnio de comprar esse favor, pois o desfrutamos segura e livremente sobre uma base muito diferente. Deus nos ama por pura graça e perdoou nossas iniquidades gratuitamente, e isso por uma bondade gratuita. Já somos salvos, e isso não por obras de justiça que tenhamos feito, ou por atos santos que esperamos realizar, mas sim inteiramente pela graça imerecida. E se é por graça, já não é por obras, e é nosso gozo e glória que tudo seja por graça de princípio a fim. A justiça que nos cobre foi feita por Aquele que nasceu de mulher, e o mérito pelo qual entramos no céu é o mérito, não de nossas próprias mãos ou de nossos próprios corações, mas sim Daquele que nos amou e se entregou por nós. Então, somos redimidos da lei porque nosso Senhor foi nascido sob a lei – e nos convertemos filhos e já não mais servos porque o grandioso Filho de Deus se fez servo em nosso lugar.

“O que?!” – alguém dirá – “então você não busca fazer boas obras?” Certamente buscamos fazê-las. Antes falávamos delas, porem agora as realizamos realmente. O pecado não terá domínio sobre nós, pois não estamos sob a lei, mas sim sob a graça. Pela graça de Deus desejamos abundar em obras de santidade, e entre mais possamos servir a nosso Deus, mas felizes somos. Porem isso não é para salvar-nos, pois já somos salvos. Ó filhos de Agar, vocês não podem entender a liberdade do verdadeiro herdeiro, quer dizer, do filho nascido segundo a promessa! Vocês que estão sob escravidão e sentem a força dos motivos legais não podem entender como devemos servir a nosso Pai que está no céu com todo nosso coração e com toda nossa alma, não pelo que obtemos em troca, mas sim porque Ele nos amou, e nos salvou prescindindo de nossas obras. No entanto, assim é. Gostaríamos de abundar em santidade para Sua honra, louvor e glória, porque o amor de Cristo nos constrange. Que privilégio é o cessar do espírito de escravidão por termos sido redimidos da lei! Louvemos nosso Redentor com todo nosso coração.

Somos redimidos da lei quanto a sua operação sobre nossa mente. Agora já não gera nenhum medo em nós. Ouvi que alguns filhos de Deus dizem às vezes: “Bem, porem, não pensa que se caímos em pecado deixaremos de ser objetos do amor de Deus, e então pereceremos?” Isso equivaleria a lançar um estigma contra o imutável amor de Deus. Vejo que comete um erro se pensa que um filho é um servo. Agora, se você tivesse um servo e ele se comportasse mal, você lhe diria: “Você está despedido. Aqui está seu salário. Precisa buscar outro patrão.” Poderia fazer isso com seu filho? Ou fazer isso com sua filha? “Jamais pensaria em algo assim”, você responde. Seu filho é seu por vida. Seu garoto se comportou muito mal contigo, então, porque não lhe deu seu salário e o mandou embora? Você responde de que ele não lhe serve por salário, e que ele é seu filho e não pode ser outra coisa. Justamente assim o é. É necessário reconhecer sempre a diferença entre um servo e um filho, e a diferença entre o pacto de obras e o pacto de graça.

Eu sei como um coração ruim pode fazer muito dano com isso, porem isso não pode ser evitado. A verdade é a verdade. Por acaso um filho haveria de se rebelar porque sempre é e será um filho? Longe disso, é precisamente isso o que o induz a sentir amor em troca. O verdadeiro filho de Deus é guardado do pecado por outras forças superiores ao medo servil de ser lançado fora das portas de seu Pai. Se estão sob o pacto de obras, tenham muito cuidado, pois se não cumprem com toda a justiça, perecerão – se está sob esse pacto, a menos que seja perfeito, estará perdido – um pecado lhe destruirá, um pensamento pecaminoso lhe levará a ruína. Se não foi perfeito em sua obediência, tem que tomar seu salário e ir-se. Se Deus trata contigo segundo suas obras, não haverá nada para ti exceto: “Lança essa serva e a seu filho”. Porem se você é um filho de Deus, isso é um assunto diferente – ainda será Seu filho ainda quando Ele lhe corrija por sua desobediência.

“Á” – alguém diz – “então posso viver como me agrada!” Escuta! Se você é um filho de Deus, lhe direi como lhe gostaria de viver. Desejaria viver em perfeita obediência ao Pai, e seria seu apaixonado desejo ser perfeito cada dia, assim como seu Pai que está no céu é perfeito. A natureza dos filhos que a graça implanta é uma lei para si mesma: o Senhor coloca Seu temor nos corações dos regenerados de tal forma que não se apartam Dele. Havendo nascido de novo e tendo sido introduzido na família de Deus, renderá ao Senhor uma obediência que não teria pensando render-lhe se só houvesse sido impelido pela ideia da lei e do castigo. O amor é uma força dominante, e quem sente seu poder odiará todo mal. Entre mais se veja que a salvação é toda por graça, mais profundo e mais poderoso será nosso amor, e mais trabalhará pelo que é puro e santo.

Não cite a Moisés por motivos de obediência cristã. Não diga: “O Senhor me lançará fora a menos que faça isso ou aquilo”. Tal prática é da serva e de seu filho – porem é muito inapropriada na boca de um herdeiro do céu verdadeiramente nascido de novo. Tire-a de sua boca. Se você é um filho, desonra seu Pai quando pensa que Ele repudiaria aos Seus – você se esquece de sua condição de herdeiro espiritual e de sua liberdade quando teme uma mudança no amor de Jeová. Está muito bem que um mero bebê fale dessa ignorante maneira, e não surpreende que muitos professantes não saibam nada melhor, pois muitos ministros só são evangélicos em parte – porem vocês, que se converteram em homens em Cristo e sabem que Ele os redimiu da lei, não deveriam regressar a tal escravidão. “Deus enviou a seu Filho, nascido de mulher e nascido sob a lei, para que redimisse aos que estavam sob a lei”.

Para que outras coisas Jesus veio? Notem adicionalmente, “a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”. O Senhor Jesus se encarnou e veio para que Seu povo pudesse realizar, desfrutar e apropriar-se plenamente da “adoção de filhos”. Quero que essa manhã vejam se podem fazer isso. Que o Espírito Santo os capacite. O que é receber a adoção de filhos? Pois bem, é sentir: agora estou sob o domínio do amor, como um amado filho, que é por sua vez amado e amoroso. Eu entro e saio da casa de meu Pai, não como um servo temporal, chamado pelo dia ou semana, mas sim como um filho em casa. Não estou buscando ser contratado como um servo, pois estou sempre com meu Pai, e tudo o que Ele tem é meu. Meu Deus é meu Pai e Seu rosto me alegra. Não lhe tenho medo, antes, deleito-me Nele pois nada pode me separar Dele. Sinto um perfeito amor que lança fora o medo, e deleito-me Nele. Tente agora, essa manhã, entrar nesse espírito. Essa é a razão pela que Cristo veio na carne: veio com o propósito de que vocês, povo Seu, sejam adotados plenamente como filhos do Senhor, exercendo e desfrutando de todos os privilégios que a condição de filhos lhes proporciona.

E logo, continuando, exerçam sua condição de herdeiros. Um que é um filho e que sabe que é um herdeiro de todas as propriedades de seu pai, não padece na pobreza e nem age como um mendigo. Considera que tudo é seu. Considera que a riqueza de seu pai o faz rico. Não pensa que esteja roubando se ele toma aquilo que seu pai lhe herdou, mas sim que o usa livremente. Eu desejaria que os crentes se aproveitassem das promessas e das benções de seu Deus. Sirvam-se com liberdade, pois o Senhor não deixará de dar-lhes nenhuma coisa boa. Todas as coisas são suas – só necessitam usar a mão da fé. Peçam o que queiram. Se vocês se apropriam de uma promessa, isso não seria uma pilhagem. Podem tomá-la sem temor e dizer: “Isso é meu”. Sua adoção implica grandes direitos – apressem-se em usá-los. “Se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo”. Entre os homens, os filhos são só herdeiros – herdeiros por propriedade uma vez que o pai morre – porem nosso Pai que está no céu vive e, no entanto, temos plena herança Nele. O Senhor Jesus Cristo foi nascido de mulher com o propósito de que Seu amado povo pudesse tomar posse de sua herança imediatamente.

Deveria sentir um doce gosto pela relação perpétua que agora foi estabelecida entre Deus e você, pois Jesus é seu irmão. Você foi adotado, e Deus não cancelou jamais nenhuma adoção até esse momento. Existe uma regeneração, mas não há tal coisa como a vida recebida então se extinga. Se é nascido para Deus, é nascido para Deus. As estrelas poderiam se converter em carvões, e o sol e a lua poderiam se converter em coágulos de sangue, porem o que é nascido de Deus possui uma vida interior que não pode terminar nunca – ele é um filho de Deus, e será um filho de Deus. Portanto, deixem que ande por todos os lados como um filho, como um herdeiro, como um príncipe de sangue real que tem uma relação com o Senhor que nem o tempo nem a eternidade poderiam jamais destruir. Essa é a razão pela que Jesus nasceu de uma mulher e formado sob a lei, para que pudesse dar-nos a desfrutar a plenitude do privilégio de filhos adotados.

Sigam-me um pouco mais por um minuto. O seguinte que Cristo nos trouxe ao nascer de mulher é: “Por quanto sois filhos, Deus enviou a vossos corações o Espírito de Seu Filho”. Aqui há dois envios. Deus enviou a Seu Filho, e agora envia a Seu Espírito. Porque Cristo foi enviado, por isso o Espírito foi enviado; e agora conhecerão a morada do Espírito Santo devido à encarnação de Cristo. O Espírito de luz, o Espírito de vida, o Espírito de amor, o Espírito de liberdade, o mesmo Espírito que havia em Cristo está em vocês. Esse mesmo Espírito que desceu sobre Jesus nas águas do batismo desceu também sobre vocês.

Você, ó filho de Deus, tem o Espírito de Deus como seu presente Guia e Consolador, e Ele estará contigo para sempre. A vida de Cristo é sua vida, e o Espírito de Cristo é seu Espírito – pelo que esse dia deve ser sumamente feliz, pois você não recebeu de novo o espírito de escravidão para ter medo, mas sim que recebeu o Espírito de adoção.

Aqui terminamos, pois Jesus veio para dar-nos o clamor, assim como o espírito de adoção “pelo qual clamamos: Abba, Pai!” De acordo a tradições antigas, nenhum escravo podia dizer: “Abba, Pai”, e de acordo à verdade segundo é em Jesus, ninguém senão um homem que é realmente um filho de Deus e que recebeu a adoção pode falar verdadeiramente: “Abba, Pai!” Nesse dia meu coração deseja para cada um de vocês, irmãos meus, que devido a que Cristo nasceu no mundo, vocês possam de imediato cumprir a maioridade, e possam dizer nessa hora confiantemente: “Abba, Pai!” O grandioso Deus, o Criador do céu e da terra é meu Pai, e me atrevo a declará-lo sem medo de que Ele não reconheça nosso parentesco. O Trovejador, o Governador do mar embravecido, é meu Pai, e apesar do terror de Seu poder, eu me aproximo a Ele em amor. Aquele que é o Destruidor, que disse: “Convertei-vos, filhos dos homens”, é meu Pai, e não me alarma o pensamento que me chamará para ir a Ele a seu tempo. Deus meu, Tu que chamarás às multidões dos mortos de suas tumbas para que vivam, eu espero ansiosamente com alegria a hora quando Tu me chamarás e eu te responderei. Faz o que queiras comigo, pois Tu és meu Pai. Sorria, e eu também sorrirei e direi: “Pai meu”. Castiga-me e enquanto choro irei clamar: “Meu Pai”. Isso fará que tudo seja para bem para mim, ainda que seja muito difícil de carregar. Se Tu és meu Pai tudo está bem para toda a eternidade. A amargura é doce e a morte mesma é vida, posto que Tu és meu Pai.”

Ó, regressem alegremente para casa, vocês, filhos do Deus vivente, dizendo cada um para si: “O tenho, o tenho, tenho aquilo que os querubins diante do trono jamais ganharam: tenho uma relação com Deus do tipo mais próximo e amoroso, e meu espírito tem essa palavra como sua melodia: Abba, Pai, Abba, Pai!”

Agora, queridos filhos de Deus, se algum de vocês está em escravidão sob a lei, por que seguir estando-o? Os redimidos sairão livres. Encanta-lhe levar cadeias? Você é como as mulheres chinesas que se deleitam em usar sapatilhas que apertam seus pés? Deleita-se na escravidão? Quer ser cativo? Você não está sob a lei, mas sim sob a graça; permitirá que sua incredulidade o coloque sob a lei? Você não é um escravo. Por que tremer como um escravo? Você é um filho. Você é um herdeiro. Precisa viver de acordo a seus privilégios. Ó, tu, semente desterrada, alegre-te! É adotado na cada de Deus; então, não sejas como um estranho. Ouço que Ismael ri de você – deixá-lo que ria. Conta-lhe dele à teu Pai, que pronto dirá: “Lança a essa serva e a seu filho.” O mérito humano não se burlará da graça imerecida; tampouco devemos de nos entristecer pelos pressentimentos do espírito legalista. Nossa alma alegra-se e, como Isaque, se enche de uma risada santa, pois o Senhor Jesus fez grandes coisas por nós, pelas quais nos alegramos. A Ele seja a glória para todo sempre. Amém.


**
Porção da Escritura lida antes do sermão: Gálatas 3:24-29 ; 4; 5:1-4

ORE PARA QUE O ESPIRITIO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.





FONTE
Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon1815.pdf

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público e com permissão de Allan Roman do espanhol

Sermão nº 1815—Volume do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,
Original em inglês:
Tradução e revisão: Armando Marcos Pinto
(28 de Novembro de 2011)

Projeto Spurgeon - Proclamando a CRISTO crucificado.
www.projetospurgeon.com.br
@ProjetoSpurgeon


[1] No Brasil, de acordo com o Código Civil de 2002 vigente hoje, a maioridade se dá aos 18 anos (N.T)
[2] “made of a woman”, segundo a King James Version
[3] Bétula é um tipo de arbusto do qual nos tempos antigos era associado com poderes místicos e terapêuticos, e foi usada como símbolo de poder, autoridade e louvor (em Roma): Fonte Wikipédia
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